Lisboa
20 Dezembro 1359
Encontro-me a entrevistar o Rei de Portugal D. Pedro I, "O Justiceiro" ou "O Cruel", como é conhecido pelo povo.
Cristiana: Excelentíssimo senhor D. Pedro e Rei de Portugal, agradeço a vossa majestade a disponibilidade para esta entrevista que será registada no nosso “Jornal de Lisboa”, para que os portugueses possam conhecer um pouco melhor os sentimentos do Rei.
D. Pedro: Para com os portugueses, meus súbditos, o meu povo, estarei sempre disponível.
Cristiana: D. Pedro, seria possível descrever um pouco a vossa vida até agora?
D. Pedro: Fui uma criança e um jovem apaixonado pela vida, pela caça, pelas festas e sobretudo pelo meu povo. Sou adepto da justiça, ainda que por vezes me considerem cruel. Aos oito anos foi decidido pelo Rei, meu pai, que eu contrairia matrimónio com D. Branca de Castela, mas devido à sua debilidade física e mental, foi anulado. Aos 16 anos foi-me definido por procuração um novo casamento com D. Constança.
Cristiana: E vossa excelência conhecia a vossa futura noiva?
D. Pedro: Não. D. Constança chegou a Portugal em 1340, e a bênção nupcial foi dada na Sé de Lisboa. Com D. Constança vinha a sua aia D. Inês de Castro, a qual eu pensava ser a minha noiva, e por quem me apaixonei apesar de ser minha prima.
Cristiana: Meu Rei, seria muita indiscrição da minha parte pedir-vos que falasse sobre esse grande amor?
D. Pedro: A minha paixão foi recíproca e mantivemos o nosso amor em segredo, até que o Rei, meu pai, descobriu e enviou Inês para fora do reino, para nos separar.
Cristiana: E durante algum tempo vossa majestade perdeu o contacto com D. Inês?
D. Pedro: Não. Nós sempre nos correspondemos em segredo através de cartas.
Cristiana: E quando voltou vossa majestade a ver a formosa D. Inês?
D. Pedro: Após a morte de minha esposa, D. Constança, que faleceu ao dar à luz ao nosso terceiro filho, D. Fernando.
Cristiana: Então a senhora D. Inês voltou a Portugal nessa altura?
D. Pedro: Sim. Meu pai acabou por se render ao nosso amor, mas nunca o aceitou. Recebi, mais tarde, D. Inês como minha legítima esposa diante de testemunhas.
Cristiana: E vossa majestade e a senhora D. Inês foram então viver para Coimbra, onde foram finalmente felizes, certo?
D. Pedro: Sim. Tivemos quatro filhos, mas a felicidade durou pouco, pois meu pai aproveitou o facto de eu me encontrar fora a caçar, juntou os fidalgos Diogo Lopes Pacheco, Álvaro Gonçalves e Pêro Coelho, procuraram Inês e assassinaram-na, alegando razões políticas. Mas a verdadeira razão foi evitar confrontos entre os filhos meus e de D. Constança, e os meus e de D. Inês, que poderiam comprometer a segurança do reino. E assim, D. Inês foi morta a 07 de Janeiro de 1355.
Cristiana: E quando vossa majestade regressou a Coimbra, como reagiu?
D. Pedro: Reagi com uma enorme raiva. Revoltei-me contra meu pai, assolei diversas terras a norte do Douro e tentei apoderar-me do Porto. Só a intervenção da Rainha, mãe D. Beatriz, evitou o pior.
Cristiana: Após a morte de vosso pai, D. Afonso IV, que fez vossa majestade?
D. Pedro: A primeira coisa que fiz, após subir realmente ao trono de Portugal foi vingar a morte da minha amada Inês.
Cristiana: E como o conseguiu vossa majestade?
D. Pedro: Através de uma troca de fugitivos com o rei de Castela, Álvaro e Pêro Coelho foram castigados. A um, mandei tirar o coração pelos peitos, e a outro pelas costas, e mandei-os queimar. O outro conseguiu fugir.
Cristiana: E se não for insolência da minha parte para com vossa majestade, eu ousaria perguntar-vos, como foi D. Inês reconhecida como verdadeira rainha de Portugal?
D. Pedro: Eu provei que tinha casado com D. Inês em 1355 e impus que, em virtude disso, a reconhecessem como verdadeira rainha de Portugal.
Cristiana: E os túmulos que estão construídos no Mosteiro de Alcobaça, onde repousa D. Inês, Rainha de Portugal?
D. Pedro: O de D. Inês já está ocupado, e o outro será para mim. Acredito que ficarão, através das gerações vindouras, como duas das mais belas obras da escultura portuguesa deste século.
Cristiana: Além de D. Inês, houve mais alguma mulher na vida de sua majestade?
D. Pedro: Sim, tive um relacionamento com D. Teresa Lourenço, da qual nasceu D. João.
Cristiana: Agradeço a vossa majestade o tempo que me dedicou e este testemunho, que será uma homenagem à mulher que foi o grande amor do nosso Rei D. Pedro I, “O Justiceiro” ou “O Cruel”.
Obrigado
Jornal de Lisboa
Cristiana Louro
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