A vida era severa, o Mundo era cruel e tudo era resumido à sobrevivência. Os corações sem piedade eram a classe gerente e os corações humildes submetiam-se perante o poder dos outros. Ela, de nome Inês, a lua venerava com os seus olhos redondos, brilhantes, verdes, com umas pestanas negras que baloiçavam ao sabor do vento; junto a estas um cabelo macio, comprido, de um castanho dourado, com a leve brisa brincava. Inês cem quadros tinha e todos representavam o mesmo: uma mulher, um homem e uma lua. Mas cada um destes quadros expressava sentimentos distintos. As feições do casal mudavam de acordo com as cores utilizadas em cada uma das pinturas. E a lua, esta, permanecia igual, vazia, sem vida, apenas com histórias da Terra para contar. A irmã de Inês acreditava que os cem quadros desenhados contavam cada encontro de Inês com um rapaz, e quando as pinturas tinham cores alegres, frescas, então o encontro fora repleto de gargalhadas e essa frescura de cor também representava as margens do rio Mondego, onde Inês nasceu e cresceu e onde conhece cada folha de árvore, cada pétala de flor, cada formiga apressada, cada abelha a recolher o pólen... Por sua vez, quando os quadros têm tons quentes, vermelhos, laranjas... Então houve muito romance entre os amantes; se os tons quentes dão lugar a uma frieza do azul e cinzento então algo aconteceu, lágrimas foram vistas... O número de quadros aumentava a cada dia, mas Isabel, irmã de Inês, não percebia quando é que ela os pintava porque nunca ninguém viu... Mas sabe-se que eram da autoria de Inês, pois as mãos da rapariga andavam sempre com restos de tinta por tirar...Inês era adorada pelo povo da vila onde morava, nunca teve muito, perdera a sua mãe devido a uma doença maligna e desde sempre que vivia com a sua irmã mais velha, Isabel, que entretanto casara com um bom homem do qual tivera um filho. Isabel sabia que a sua irmã um amor escondia, já há muito tempo, mas não percebia porque é que esta não contava nada dele. Um dia chegou à vila uma notícia do Rei D.Afonso IV . Este dizia que uma rapariguinha o coração do seu filho roubara, o coração de D.Pedro, e que este não queria casar com Dona Constança, que fora filha de um indivíduo rico e com posses. O casamento destes traria fortunas ao reino tirando-o da crise, mas a recusa de Pedro para com o casamento atrairia problemas e má imagem para o Rei. E quando alguém encontrasse a dita moça e a trouxesse perante o Rei, então uma genuína recompensa levaria. Após a notícia a vila atirou-se à procura da moça, querendo encontrá-la o mais rapidamente possível, e cada um para o seu lado foi imaginando diversos planos para descobrir quem ela seria para encontrá-la. Inês sentia-se pouco confortável porque apesar de ninguém saber que a procurada era ela, mais tarde ou mais cedo descobririam que era tinha sido ela a roubar o coração ao filho do Rei, que era ela quem se encontrava com ele há muito tempo e que era ele o homem dos seus quadros. Inês não aguentou, contou tudo à sua irmã e esta ficou horrorizada; implorou para que Inês se afastasse de Pedro e que o convencesse a casar com Dona Constança, mas Inês já nada podia fazer: um filho com ele tinha que estava aos cuidados de uma velhota conhecida do casal... Isabel ficou furiosa com a sua irmã e, apesar de serem do mesmo sangue, traiu-a, contando ao Rei que era a rapariga que o seu filho atormentava. Inês foi levada até o Rei e este deicidiu uma triste sentença para ela: a Morte. Apesar de Inês ter sido adorada por todos na vila, de um momento para o outro todos passaram a odiá-la e a rezar para que ela fosse condenada. A sua irmã, denunciando-a, recebeu a prometida oferta: muito dinheiro. Inês foi morta aos olhos de Pedro. Este não aguentou a dor, tornou-se num homem fútil, frio, sem sentimento. Foi buscar o seu filho, não casou com Dona Constança, matou os assassinos de Inês e foi-se embora para longe... nunca mais ninguém o viu... Muitos ainda dizem de que o Anjo de Inês por aí anda olhando por todos, mas não quer vingar-se pois o destino há-de fazer a sua própria vingança.
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